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Como o conservadorismo nas redes sociais se relaciona com propagandas nazistas

  • Foto do escritor: giovannamoliveira
    giovannamoliveira
  • 20 de mai.
  • 19 min de leitura

RESUMO

Este artigo busca investigar o crescimento do conservadorismo nas redes sociais, entendendo como grupos de extrema-direita e ultraconservadores usam das redes para divulgar seus ideais e alavancar o conservadorismo entre jovens. Partindo de pesquisa explicativa, básica e qualitativa, pretendemos abordar as problemáticas desse conservadorismo nos ideais dos jovens, e entender quais são os discursos usados para que cada vez mais crianças e adolescentes abracem esse discurso que é diretamente prejudicial para a política do país. 

Palavra-chave: conservadorismo, extrema-direita, ultra conservadorismo, redes sociais, jovens, adolescentes, nazismo.


ABSTRACT

This article has as intention to investigate the increase of the conservatism on social media, understanding how far-right and ultraconservative groups use these platforms to disseminate their ideals and promote conservatism among young people. Based on explanatory, basic, and qualitative research, we intend to address the problems of this conservatism in the ideals of young people, and understand what discourses are used to encourage more children and adolescents to embrace this discourse, which is directly harmful to the country's politics.

Keywords: conservatism, far right, ultraconservatism, social media, young people, teenagers, depression, nazism.


1. INTRODUÇÃO

A partir das propostas da matéria de Cibercultura e Redes Interativas, foram desenvolvidos debates referentes aos problemas causados na sociedade a partir das culturas online. Dentre os diversos problemas discutidos, a questão do aumento do conservadorismo nas redes sociais foi pontuado, gerando a ideia central desse artigo: identificar, pontuar e compreender o que é o conservadorismo, como as redes sociais se tornam palco para os conservadores exporem seus pensamentos e atraírem cada vez mais pessoas para essa bolha conservadora. 

Nas pesquisas iniciais, referentes ao impacto desse crescimento, foi possível notar que os problemas causados pelo conservadorismo extremista não se resumem em ideologias políticas, mas em problemas graves para a sociedade, que podem ser questões fatais. 

Segundo o site Politize!, o conservadorismo é “um pensamento político que defende a manutenção das instituições sociais tradicionais, como a família, a comunidade local e a religião, além dos usos, costumes, tradições e convenções”. Entretanto, é importante pontuar a distinção entre a ideologia conservadora, que é apenas o conceito de quem prefere se manter dentro do padrão, mas a política conversadora não permite que ninguém tenha opiniões contrárias, progressistas ou radicais de esquerda. A partir dai, encontramos relações entre o conservadorismo, especialmente aquele praticado por jovens nas redes sociais, e o início do desenvolvimento do Nazismo.

É a partir disso que surge a base do deste trabalho, pontuando como o conservadorismo utiliza as redes sociais, memes, vídeos de piada e a evolução dos membros da extrema-direita como maneira de chamar atenção de outros usuários, fazendo uma espécie de “lavagem cerebral” que os faz acreditar que esses ideais são corretos e não são malignos a sociedade. Esse é um dos motivos pelos quais o tema chamou tanta atenção durante o desenvolvimento do trabalho, pois, muitas vezes, os crimes relacionados com a extrema-direita são ignorados e tratados apenas como “questão de opinião”, o que pretendemos mostrar como uma mentira, já que muitas dessas coisas pequenas foram fundamentais para o estabelecimento do nazismo na Europa.

O artigo apresenta os motivos pelos quais os jovens acreditam nos discursos da extrema-direita, apontando relação direta com o capitalismo, com teorias de aprendizagem social e aumento da depressão no mundo. Segue apresentando as relações com o nazismo, como o uso de ciência como argumento do nazismo, a ilusão criada pela extrema-direita e a ideia de um inimigo em comum, que vem prejudicando o direito de mulheres, imigrantes e da comunidade LGBTQIAPN+. Por último, as questões da regulamentação das redes sociais e como as regras, que já são falhas, podem ser burladas.


2. MOTIVOS DO AUMENTO DO CONSERVADORISMO NA INTERNET

Um dos grandes motivadores dos grupos jovens que vem seguindo esses comportamentos é a identificação com esses grupos conservadores. Em diversos casos estudados, os jovens que reproduzem as falas preconceituosas são jovens que, fora das redes, se sentem fracassados, desajustados e desesperançosos com diversas áreas de sua vida, em especial suas relações sociais e amorosas. É aí que, ao criarem sua pequena comunidade na internet, onde se sentem bem-vindos, encontram os fóruns de incels.

“Incel” é um termo criado nos anos 1990, em um blog chamado Alana’s Involuntary Celibacy Project (em português O projeto de celibato involuntário de Alana), em que incentivava pessoas que tinham dificuldades em relações românticas a compartilharem suas experiências. Então, o nome involuntary celibates (em português "celibatários involuntários") se torna apenas in-cel. Entretanto, os participantes dessa comunidade passaram a entender relacionamentos como mercadorias, e por conseguinte, mulheres passaram a serem entendidas da mesma forma. Atribuem valor às mulheres por seu status econômico, beleza estética e conservadorismo, mas a partir do momento que são rejeitados por uma mulher, passam a propagar discursos de ódio, gerando o que vemos hoje nos fóruns e redes sociais. 

Segundo a teoria da aprendizagem social de Albert Bandura (s.d.), as pessoas aprendem a se comportar de acordo com o que observam de outros indivíduos, sejam estes aqueles com quem se identificam ou com quem gostariam de se parecer. Esse tipo de aprendizagem é comum entre adolescentes, especialmente aqueles que enfrentam questões psicológicas relacionadas a padrões de comportamentos. Por isso, jovens começam a tentar se parecer com o que se identificam, com o que recebe mais curtidas, com o que viraliza, afim de se encaixarem e se assimilarem mais com o que é visto como popular, sem se preocuparem com a eticidade de suas ações.

Em outros casos, homens de boa aparência, bem sucedidos e de comportamento extremamente conservador convencem os jovens que esse é o “comportamento do sucesso”, ao mostrarem que em um relacionamento dominador, o homem receberá controle e atenção, o que é extremamente desejado por esses homens. A doutora em ciências sociais e pesquisadora do fenômeno Bruna Camilo de Souza Lima e Silva (2023), resume o movimento incel: 

Há a defesa da masculinidade hegemônica de que o homem não deve demonstrar emoções, afeto, dividir tarefas ou abraçar outros homens. E também de uma feminilidade universal, com um padrão de beleza específico, geralmente branco, e com comportamentos tidos como adequados, como se submeter às necessidades e vontades desse homem e não usar um determinado tipo de roupa. Tudo isso para, assim, ser digna da companhia desse homem red pill.

Red Pill é outro termo frequentemente usado entre os conservadores na internet, segundo Silva: “O red pill começou como um termo e recentemente se tornou um movimento masculinista. E qual é a verdade que eles dizem difundir? De que as mulheres são aproveitadoras, controladoras e manipuladoras”. Um dos criadores de conteúdo da extrema-direita desenvolveu um “manual do red pill” em que ele ensina jovens como se portarem, entretanto, seus vídeos carregam conteúdo machista e misógino, como em algumas das citações apresentadas em matéria da CNN: “o propósito de um homem num relacionamento tem que estar sempre acima do propósito da mulher"; "a sua mulher custa mais caro que uma garota de programa"; e "o homem está mais feito para o sexo do que a mulher".

A partir desse ponto, começam a entender que a violência pode ser usada como forma de conquistar respeito, espaço e atenção, o que os leva a um próximo nível: a adoração a armas, violência, guerras e assassinato. Um dos grandes exemplos, são fóruns que cultuam massacres como o massacre de Columbine em 1999 ou o massacre de Suzano em 2019. O Jornal Metrópoles elaborou uma pesquisa aprofundada nesses fóruns após o sucesso da série Adolescência (2025) da Netflix. Entre as postagens recentes do fórum, um usuário comenta: “Minha escola está cheia de putas, gays e traficantes. Quem sabe se ano que vem eu realize meu Actum Sanctum”. Actum Sanctum é mais um termo criado como uma das maneiras desses grupos se comunicarem sem serem pegos pelo controle das redes, definindo um crime como o de Suzano. Essa terminologia revela como enxergam os criminosos como heróis, de maneira a quase santificá-los, já que acreditam que essas reações são maneiras de “purificar o mundo”, discurso esse herdado do nazismo.


  1. RELAÇÃO ENTRE OS INCELS E O NEONAZISMO

Segundo alguns pesquisadores, o Nazismo seria consequência de algumas ideias que, sozinhas, aparentavam ser inofensivas. Entre elas, algumas ideias recorrentes nas discussões do conservadorismo. A seguir, vamos trazer relações entre algumas ideias nazistas e ideais conservadores propagados nas redes sociais.


Ciência como argumento para racismo

A eugenia é uma teoria que diz que seres humanos podem ser melhorados através da reprodução seletiva. Se apoiando na teoria de Charles Darwin (1859), os eugenistas seguiram os ideais de Francis Galton (1865) que postulou que a hereditariedade transmitia características mentais, o que é verdade, mas, na visão de Galton, seria uma maneira de manter a qualidade dos genes ao escolher um parceiro que pudesse gerar uma raça mais forte. A teoria de Galton se apoia na primeira lei de Mendel (1857), em que o homem analisa as características de ervilhas quando cruzadas e define os genes como dominantes e recessivos. Segundo essa ideia, os eugenistas acreditavam que a casca enrugada do gene dominante era uma degeneração e pessoas de genes bons não deveriam se misturar com degenerados. A ideia era de que o cruzamento entre um branco e um índio faz um índio, entre um branco e um negro faz um negro, entre um branco e um hindu faz um hindu, entre qualquer raça europeia e um judeu faz um judeu (Madison Grant, 1916), o que criava uma hegemonia de relações entre pessoas de uma mesma raça.

Os nazistas e conservadores crêem na mesma ideação de que estarem em relações de proximidade com pessoas de “baixa qualidade” fará deles degenerados. Sendo esse um dos motivos pelos quais os incels veem o relacionamento como um produto, pois são contra misturarem seus genes com os de uma mulher “de baixo valor”.


A Ilusão de Beleza

O Diretor do documentário Arquitetura de Destruição, Peter Cohan (1989) disse: “O nazismo também era estética. Pregava que uma nova Alemanha surgiria mais forte e bonita, num sonho ao qual só os artistas podiam dar forma”. O sonho de um país melhor, mais forte e grandioso fazia as pessoas verem os crimes cometidos pelo nazismo como apenas um meio de alcançarem a tão sonhada soberania. Similar ao que acontece hoje com a juventude, que expressa frequentemente odiar o Brasil por sua pobreza, sonhando com uma realidade melhor e acreditando que a guerra pode levar o país à soberania.

Sendo assim, os grupos conservadores seguem a ideia eugenista de que a eliminação de grupos minoritários ou a “conversão” desses grupos, tornará a nação mais poderosa. E a partir disso surgem os conteúdos de propaganda.

A estratégia da Alemanha Nazista ia muito além das armas bélicas, para terrem apoio do povo, usavam muito da manipulação de massas através de propagandas politicas. Na obra “O Inimigo Judeu: propaganda nazista durante a Segunda Guerra Mundial e o Holocausto” de Jeffrey Herf, o autor analisa as propagandas antissemitas no decorrer da Segunda Guerra Mundial. Desde o início do governo nazista, os judeus foram desenhados como inimigos em diversos canais de comunicação, o que fez com que a população aceitasse narrativa de que os judeus queriam destruir a raça ariana e dominar o mundo, pois “os propagandistas nazistas aprenderam a traduzir postulados ideológicos fundamentais em narrativa contínuas dos eventos, uma altamente enviesada história do bem contra o mal” (P.59).  Em contrapartida, a imagem de Adolf Hitler era glorificada, sempre em imagens que mostravam seu poder, força e superioridade.

O mesmo método vem sendo usado na propaganda do conservadorismo. Desenham pessoas de esquerda como agentes do comunismo, que teriam a intuição de destruir o país e prejudicar as pessoas de bem, enquanto usam imagens de políticos e criadores de direita de maneira alegre, sempre os colocando em posições de superioridade e falando sobre suas conquistas.


Inimigo em comum

Outra forma de fazer propagandas entre os jovens, é através dos conteúdos de humor que culpabilizam pessoas ou grupos minoritários. Seja usando imagens de outras pessoas — geralmente gordas ou pretas —, ou divulgando fake news, incitam ódio na internet com a intenção de irritar o público, o chamado rage bait. Segundo o escritor Jorge Grimberg, funciona como uma provocação planejada, geralmente relacionada a temas sensíveis, como gênero ou sexualidade. Com isso, as pessoas fora da bolha conservadora desenvolvem raiva das minorias que já são alvo dos conservadores. 

Um exemplo desse tipo de ataque pensado para direcionar o ódio das massas a grupos minoritários foi o caso do ‘kit gay’ que aconteceu durante as eleições de 2018. No caso, um vídeo em que diziam que mamadeiras com bicos em formato de pênis estavam sendo distribuídas em escolas a mando de Fernando Haddad (PT). Com isso o usuário tinha a intenção de criar um pensamento negativo sobre o Partido dos Trabalhadores e sobre os homossexuais. Em nota ao portal O Globo, a assessoria de imprensa do partido esclareceu: "É mentira que governos do PT tenham produzido ou distribuído a qualquer tempo qualquer material que pudesse ser chamado de 'kit gay'. É falso e criminoso todo conteúdo associado a esse tema nas redes sociais". 

Na sociedade atual, o inimigo pode variar, desde mulheres (e especial as que se autointitulam feministas, negros e pessoas que fazem parte da comunidade LGBTQIAPN+, os apelidados de “woke”. Woke é uma gíria estadunidense para definir as pessoas com ideais políticos progressistas, inclusivos e distantes do movimento conservador. A gíria surgiu nos anos 1920, entre os afro-americanos para descrever a ideia de estar “acordado” (na tradução literal) ou atento às injustiças raciais. Em 2017, 0 dicionário de Oxford definiu a gíria como "estar consciente sobre temas sociais e políticos, especialmente o racismo", mas o que chama atenção é a nota acrescentada a descrição: “esta palavra é frequentemente empregada com desaprovação por pessoas que pensam que outros se incomodam muito facilmente com estes assuntos, ou falam demais sobre eles, sem promover nenhuma mudança", deixando claro a imagem negativa que os conservadores têm dos liberais.

Por ser um termo originalmente estadunidense, foi muito citado durante as eleições dos Estados Unidos da América em 2024. Em seu primeiro discurso no Congresso americano, o representante do Partido Republicano, Donald Trump, disse: "Nós acabamos com a tirania da chamada política de diversidade, equidade e inclusão de todo o governo federal. Nosso país não será mais ‘woke’”. Trump já tinha criticado os wokes em 2020, com a promessa de combate aos “woke lefties” sendo um dos pontos principais em sua campanha de reeleição, justificando as críticas com o argumento de que o grupo praticava “fascismo de extrema-esquerda”. 


  1. O IMPACTO DO CRESCIMENTO DOS CONSERVADORES

Segundo o relatório “Os Direitos das Mulheres em Revisão 30 Anos Após Pequim” publicado pela ONU no 50º Dia Internacional das Mulheres da ONU, revela que em 2024, um quarto dos governos do mundo relataram retrocessos nos direitos das mulheres. Mesmo com diversas propostas para melhoria desses números, os governos desses países não estão abertos a esse tipo de evolução, como é esperado dos governos de extrema-direita conservadores.

Outros países registraram diminuição nos direitos de outras minorias como da comunidade LGBTQIAPN+ e imigrantes. Mais de 70 países ainda mantêm leis que criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo, mas países como os Estados Unidos  passaram a proibir discussões sobre orientação sexual ou identidade de gênero dentro das escolas; na Itália, prefeitos proibiram casais homossexuais de registrarem crianças. No Brasil, 342 projetos de leis prejuiciais á comunidade LGBT+ ainda tramitar as Assembleias Legislativas, Câmara dos Deputados e Senado Federal. A principal pauta desses projetos afeta as pessoas transgênero, proibindo a linguagem neutra, restrição do uso de banheiros públicos e até o cancelamento da possibilidade de alteração de gêneros em documentos.

Já os imigrantes estão perdendo direitos em diversos países do mundo, mas em especial nos Estados Unidos. Desde a eleição do atual presidente Donald Trump, mais de 2 milhões de imigrantes já deixaram os EUA. O cantor porto-riquenho Bad Bunny comentou as deportações em massa ao explicar seus motivos para deixar os EUA fora da sua turnê “Debí Tirar Más Fotos”: “Havia a questão de — tipo, a po*** do ICE poderia estar do lado de fora [do meu show]. E era algo sobre o qual estávamos conversando e com o, qual estávamos muito preocupados.”.

Além disso, casos de ataques violentos a imigrantes ou pessoas que aparentam serem imigrantes. Como o caso da chefe de cozinha Wan Lei que foi estaqueada na rua em outubro de 2025 e teve o pulmão perfurado sem motivo aparente.

Outro ponto que o conservadorismo está prejudicando o público geral é a maneira como os extremistas de direito utilizam da ciência. A extrema-direita brasileira é, por muitas vezes, contra o meio ambiente, direitos básicos e ciência, o que prejudica o país de diversas maneiras através do negacionismo dos governantes e apoiadores. Um exemplo dado pela Brasil de Fato em matéria de 2024, é a tragédia do Rio Grande do Sul, que foi totalmente associada so negacionismo climático e ambiental. Outra situação fatal e nitidamente relacionado ao negacionismo foi o descaso com a pandemia do COVID-19 em 2020, em que vacinas e fatos relacionados a doença foram descredibilizados, as precauções que deveriam ser tomadas pela população foram ignoradas, resultando em mais de 700 mil mortos no país.


  1. REGULAMENTAÇÃO DAS REDES SOCIAIS

Seguindo o contexto, é comum imaginarmos que as empresas responsáveis pelas redes sociais são falhas quando se trata da regulamentação das publicações de seus usuários. Ao acessar as redes, facilmente encontramos publicações que solicitam as big techs que removam os conteúdos preconceituosos.

Na descrição das normas da Meta, empresa responsável pelos aplicativos Facebook, Instagram, Thread e WhatsApp, há uma parte descritiva sobre condutas de ódio nos aplicativos. O fundamento da política da empresa diz:

Removemos discursos desumanizantes, alegações de imoralidade ou criminalidade grave e insultos. Também removemos estereótipos prejudiciais, que definimos como comparações desumanizantes historicamente usadas para atacar, intimidar ou excluir grupos específicos e que muitas vezes estão ligadas à violência no meio físico. Por fim, removemos insultos graves, expressões de desprezo ou repulsa, xingamentos e incitação à exclusão ou segregação quando direcionados a pessoas com base em características protegidas.

Entretanto, recentemente, houve alterações em relação às permissões da empresa. Um dos pontos mais comentados por usuários dos aplicativos é a permissão de alegações de doença mental baseadas em gênero ou orientação sexual. A empresa justifica a permissão se a ofensa for baseada em discurso político ou religioso, que, como citado anteriormente, são os maiores impulsionadores de discursos de ódio. As redes sociais se apoiam na ideia de liberdade de expressão para sustentarem esse tipo de política, mesmo argumento utilizado pelos conservadores que propagam os discursos de ódio na internet.

No livro A Máquina da Vergonha,  a matemática Cathy O’Neil afirma que o ódio gera muito mais lucro para empresas do que reações positivas. Novamente, isso acontece porque o discurso da extrema-direita se caracteriza pela emoção, que concede uma grande visibilidade graças ao mecanismo de viralização das redes sociais (Forti, 2022).

No Brasil, a regulamentação das redes sociais é ditada pela Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014 (Marco Civil da Internet), que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. O art. 2º da Lei decorre sobre a disciplina do uso da internet, garantindo o respeito à liberdade de expressão bem como a pluralidade e diversidade (inciso II, 2014). Além disso, o inciso VI do art. 3º da mesma Lei, garante a responsabilização dos agentes de acordo com suas atividades, nos termos da lei.

Apesar das descrições, em 2022 o Senador Fabiano Contarato propôs um projeto de lei para alterar a  Lei nº 12.965/2014. Nas alterações, o senador acresce os arts. 18-A, 18-B e 18-C:

“Art. 18-A. Os provedores de aplicação têm o dever de implementar soluções para mitigar a ocorrência de viés algorítmico que induza a tomada de decisões ou a comportamentos discriminatórios ou preconceituosos.”
“Art. 18-B. As plataformas de busca têm o dever de implementar soluções para evitar resultados de pesquisas que direcionem os usuários a conteúdos que incitem o ódio, a discriminação ou o preconceito contra pessoa, ou grupo de pessoas, em razão de sua etnia, raça, cor, nacionalidade, origem regional, idade, deficiência, religião, sexo ou orientação sexual.”
“Art. 18-C. O provedor de rede social tem o dever de adotar, no âmbito e nos limites técnicos de seu serviço, medidas efetivas e transparentes para combater a disseminação de conteúdos que incitem o ódio, a discriminação ou o preconceito contra pessoa, ou grupo de pessoas, em razão de sua etnia, raça, cor, nacionalidade, origem regional, idade, deficiência, religião, sexo ou orientação sexual. 
§ 1º O provedor de rede social tem o dever de disponibilizar funcionalidade de fácil acesso que permita ao usuário notificar a plataforma sobre conteúdos como os referidos no caput. 
§ 2º As notificações devem ser tratadas de forma diligente, cabendo ao provedor: 
I – adotar política e termos de uso com cláusulas que atendam ao disposto no caput; 
II – elaborar e divulgar relatórios que demonstrem o grau de efetividade

Na justificativa de seu projeto, Contarato justifica: 

É preciso reconhecer que os provedores de redes social são responsáveis pela prestação de um serviço que potencializa enormemente a divulgação de conteúdos ofensivos. Nesse sentido, essas plataformas devem participar ativamente no combate desse grave problema.
Mesmo com regulamentações previstas em lei e com termos de uso que, mesmo falhos, ainda restringe alguns termos e ofensas, os comentários negativos e preconceituosos dos grupos conservadores ainda conseguem pela peneira do algoritmo, já que o grupo criou sua própria maneira de burlar as regras dos sites e redes sociais através do chamado “dog whistle”.

Em português “apito de cachorro”, é o nome dado para designar discursos que não são compreensíveis para quem está fora da bola, assim como apitos para cachorros não podem ser ouvidos por seres humanos. Esses discursos podem acontecer através de textos, imagens, números ou símbolos, de maneira que se parecem inofensivos aos olhos de quem não conhece os significados ocultos. 

Existem centenas de símbolos e ações que já foram comprovadas como apitos de cachorro, alguns exemplos são:

2.4.1. 14/88

Existem algumas explicações não confirmadas para a origem do número 14, alguns pesquisadores acreditam que tenha relação com o livro “14 porquês” do neonazista David Lane. Para outros, seria relacionado a quantidade de palavras para o lema: “Devemos assegurar a existência de nosso povo e um futuro para as crianças brancas”. Já o 88 tem um significado mais certeiro: se referem à oitava letra do alfabeto, H, que se torna Hail Hitler.

2.4.2. SS

Faz referência aos raios usados como símbolos da vitória da força policial alemã nazistas, Schutzstaffel (SS).

2.4.3. Leite puro

A relação entre o leite e a supremacia branca vem de anos antes da internet. Um panfleto do Conselho Nacional de Laticínios dos EUA divulgou, em 1920, que pessoas que consomem mais leite “são progressivas na ciência e em todas as atividades do intelecto humano”. Segundo a professora de direito na Faculdade de Direito da Universidade do Havaí, Andrea Freeman, essa ligação do leito e o racismo ainda pode ter relação com questões biológicas, já que pessoas brancas de origem escandinava tem uma genética que digere melhor o leite em comparação com outras culturas não brancas.

No Brasil, essa relação entre o leite e o nazismo cresceu em 202, quando o então presidente Jair Bolsonaro bebeu um copo de leite puro em um vídeo ao vivo. Seus apoiadores acreditaram que tal ação fosse uma maneira de retomar a supremacia branca.

A American Jewish Commitee disponibiliza um glossário com algumas das expressões dog whistle mais comuns na língua inglesa quando relacionadas diretamente com o nazismo. Além dessas, existem maneiras ainda mais sigilosas. 

Usar palavras que são fora do radar do sistema das redes é comum entre esses grupos. Usando “bambi” no lugar de “viado”, “estudar” no lugar de “estuprar”, entre outros. Para pessoas desavisadas, isso pode passar despercebido, mas 


6. CONCLUSÃO

Dessa forma, a partir das pesquisas feitas para esse artigo, podemos concluir que o crescimento do conservadorismo tem relação direta com a maneira como as pessoas se comportam na internet. A falta de regras, monitoramento e a maneira que os grupos encontraram para burlar os sistemas, cria uma bolha de jovens que acreditam que as ideias fascistas, racistas e misóginas não são problemas, descontando sua raiva diretamente em grupos minoritários por sofrerem dessa “lavagem cerebral” da extrema-direita. 

Entretanto, os resultados dessas “opiniões” podem resultar em casos fatais, problemas graves e até mesmo guerras entre pessoas de ideais políticos distintos. A leitura, pesquisa, análise de fatos e empatia com grupos diferentes seria a única solução para os problemas gerados pelo conservadorismo extremo. Entretanto, essas são exatamente as coisas que esses grupos são contra. 



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