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Primeiro capítulo de Doce Susto

  • Foto do escritor: giovannamoliveira
    giovannamoliveira
  • 20 de mai.
  • 9 min de leitura

Oi! Seja bem-vindo ao primeiro capítulo de Doce Susto, livro de romance sáfico disponível em e-book e físico. Aproveite o gostinho desse primeiro capítulo e conheça Beatriz e Amélia!


Trancada pra fora do meu próprio emprego, deveria me demitir? 

— Qual é, você ouviu uma palavra do que eu disse? — a voz do outro lado da linha parecia meio robótica, mas Triz conseguia ouvir perfeitamente.

— Eu tô te ouvindo, Dan, eu só não ligo.

— Pois deveria ligar. Você passa duas semanas fora, perde todas as fofocas e quando eu paro minha vida pra te atualizar sou tratado desse jeito? — a voz de Dante pipocava no eletrônico, mas Triz podia sentir o deboche em cada palavra.

— Dante, a gente convive com as mesmas pessoas há anos, o namoro vai e volta da Clara e do Leo já não é mais uma fofoca. — Triz não conteve a risadinha enquanto colocava a camiseta cinza do uniforme.

— Mas eu tô pouco me fudendo pro que eles fazem. — a voz do outro lado da linha fez um resmungo seguido de um suspiro. Provavelmente Dante estava amarrando os tênis. — Me importo com o que falam de mim. As pessoas sabem com quem eu ando. Sabe, me diga com quem tu andas e eu te direi quem és? Nunca iam me perdoar se eu fosse amigo de uma vaca igual você.

— Más notícias, você tá tipo, 12 anos atrasado? E qual é, o que eu posso fazer de tão babaca?

Triz se jogou na cama, o celular ainda apoiado na escrivaninha, que servia mais como um apoio pra suas roupas e menos como mesa de estudos, mas também ela não dava a mínima. Não no momento. 

Com os braços abertos, olhando pro teto e com os pés pendurados pra fora pra garantir que os tênis não sujassem o lençol, ela continuava ouvindo Dante descrever cada um dos milhares de boatos que tinham sido espalhados sobre Beatriz e como a péssima reputação da garota tinha acabado respingando nele.

Dante era seu melhor amigo desde… sei lá, sempre? Era criativo, esperto. Era, Provavelmente, a pessoa mais maravilhosa que Beatriz conheciajá tinha conhecido, mas era também a mais sem noção. Agora, por exemplo, enquantoenquantndo descrevia os motivos pelos quais Triz era uma vaca, parecia meio sem noção.

De verdade, quem lembrava da vez que ele tinha comprado um pão de queijo pra ela e Triz não tinha pago o valor de volta? Faziam pelo menos 7 anos. E ainda tinha a vez que ela furou a fila do banheiro e Dante quase fez xixi nas calças. Ou a vez em que Dante acidentalmente beijou o cara que Dante estava falando há uma semana porque esqueceu a cara do moleque. Ou mais um milhão de coisas, Triz fazia bobagem com bastante frequência, na real.

— Dan, a gente precisa mesmo continuar nessa discussão? Você ainda tem um emprego pra ir, não tem?

— Olha quem fala. Você tem exatamente o mesmo emprego que eu. — verdade. — Seu pai me contratou. — mais uma verdade. — E todo mundo sabe que é mais fácil ele te demitir do que me demitir. — terceira verdade de uma vez, já pode pedir música no Fantástico. — Até porque seus pais gostam mais de mim do que de você. — quatro em seguida, era um novo recorde. — Assim como todo mundo.

— Aí você mentiu, né? O Rafa gostou muito mais de mim.

Um silêncio caiu na chamada. O nome proibido entre eles — o cara que Triz tinha beijado acidentalmente — sempre fazia Dante respirar fundo pra não acabar com a vida de Beatriz. Ah, se ele pudesse rasparia aquele lindo cabelo preto só pra passar uma mensagem: talarica morre cedo.

— E por que você não vai tomar no cu, hein, Triz? Eu, hein, vai trabalhar, menina. Vira gente. Desgraça. — dava pra ouvir o tênis arrastando enquanto ela caminhava. — Vou desligar. Te encontro no portão B. 

E desligou. 

Triz se sentou, com as costas doloridas e a maior preguiça do mundo em seu corpo. Ela queria fazer qualquer coisa, menos sair pra trabalhar. Não que não gostasse do emprego, só não gostava de trabalhar. Eram duas coisas completamente diferentes.

O maior problema do trabalho era o fato de trabalhar a céu aberto. Quando o clima estava bom, ela não tinha reclamações, mas quando era um dia tão quente e abafado como aquela terça, sentia o corpo se misturando com a terra debaixo do Sol quente. 

Se trabalhasse em um escritório de advocacia, como uma daquelas garotas chatas que tinham estudado com ela, pelo menos estaria no ar condicionado, sentindo a ponta do nariz congelar e não nessa falsificação de fim de inverno, começo de primavera.

No caminho até o grande Parque Gioco, conseguia ver flores crescendo e até aquela Mangueira maravilhosa do quintal da Dona Sara, que parecia estar começando a dar frutas. Quando Triz era criança, amava essa época do ano porque todos os vizinhos que tinham árvores em seus quintais davam algumas frutas pra ele. Todos diziam que ela precisava de vitaminas, que era muito magrela.

Hoje em dia, Dona Sara reclamava que ela estava muito grande e a dimensão de vê-la como uma mulher adulta sempre assustava a coitada. Mas a senhora nunca vacilou uma vez em chamar pela jovem quando precisava de alguém alta e forte pra resolver algum problema. 

Talvez porque todos os velhinhos da única rua do bairro a consideravam meio filha. Talvez porque ela era a única não-velhinha na única rua do bairro. Essa era a parte boa de morar em um bairro que era quase uma cidade do interior.

As cartas ainda chegavam com o endereço marcando São Paulo, mas a quantidade de árvores altas, de grama e ar puro provavam que aquele espaço tinha deixado de ser São Paulo há tempos. Talvez nunca tivesse sido.

A Vila Cachoeira era o ponto onde os motoristas começam a rezar na estrada. Se você sair um pouco antes do primeiro pedágio, vai cair direto no bairro de uma rua só. Ok, duas. Do seu lado direito você pode ver um quarteirão de casas grandes, antigas, daquelas que a tinta rosa da parede até descasca — essa é a casa da Dona Sara, inclusive.

Do seu lado esquerdo estará o maior parque de diversão da cidade. Nem pense nos concorrentes, eles podem ser bons, mas quem vai uma vez ao Parque Gioco sabe que nenhum outro parque se compara com ele. Seja pelos brinquedos, pelos preços acessíveis, pelos funcionários maravilhosos ou só pela mina muito gata que trabalha lá. 

Beatriz é a mina gata, se você estiver se perguntando.

No início, ela achava meio estranho. Sempre que alguma excursão escolar passava o dia no parque, as crianças do ensino médio passavam quatro, cinco, seis, vezes em frente a posição dele, sem importar onde ele estava trabalhando. Nas primeiras vezes, ela achou que as garotas realmente tinham se entretido por ali, mas o parque era tão grande, como um carrinho de pipoca na frente da montanha russa infantil era tão interessante?

Não era. A menina alta e cheia de tatuagem era interessante.

Por isso, agora, ela só trabalhava diretamente quando se tratavam das crianças menores pra quem podia mentir dizendo que era tatuagem de chiclete.

No dia a dia, ela era responsável pelo cuidado e controle do Velocitrem; a montanha russa de adrenalina média do parque. E quando falamos de adrenalina média, significa uns 3 loopings e umas 18 crianças vomitando. Era pouco, até.

Triz chegou ao parque arrastando os pés. Era na rua da frente da sua casa? Sim. Mas o portão B, onde Dante iria encontrá-la, era o portão mais distante. Ela tinha que andar todo seu quarteirão e um pedaço da rodovia para chegar. Agora se perguntava se não teria sido melhor ir de moto.

O portão B tinha uma das 3 bilheterias. A principal ficava no portão A, onde a maioria das pessoas entrava, já que ela dava acesso direto ao parque e a fila sempre estava mais rápida. A bilheteria C era exclusiva para escolas em excursões, geralmente nem funcionava sem agendamento. E a bilheteria B, onde estava agora, costumava atender os idiotas que estacionavam nas vagas ali e decidiam caminhar por dentro do parque até alcançar os brinquedos mais legais.

Ok, provavelmente alguém curtia o Carrossel das Princesas Encantadas, mas Triz não achava que essa era a primeira visão que os donos tinham imaginado.

Assim que chegou ao portão B, notou que ele ainda estava fechado. O que era estranho já que Moisés, o cara que trabalhava nessa bilheteria, morava dentro do parque. Morava de morar mesmo. E ele nunca se atrasava. 

Triz agarrou uma das barras de metal do portão dourado e chacoalhou, fazendo um barulho insuportável graças à corrente de metal que estalava contra os empurrões.

— Ei, ei, ei, que que é isso? — Uma voz saiu de dentro da cabine da bilheteria, mas não foi a de Moisés. Nem de longe. — Tá maluca? Para com isso!

A pessoa que saiu da cabine da bilheteria não tinha a voz de Moisés e muito menos a aparência dele. A não ser que uma bruxa tivesse aparecido na madrugada, o velho Moisés de 57 anos não deveria se parecer com uma garota de cabelo rosa.

— Quem é você? — Triz perguntou meio automático.

— Se afasta do portão ou eu vou chamar a polícia — ela tinha um tom sério e realmente autoritário. Talvez assustasse alguém, só não Triz.

— Vai chamar a polícia pra mim? — Triz estava num misto de curiosidade com confusão que não poderia ser explicada em palavras, só seu olhar curioso e as sobrancelhas franzidas explicavam o que ela estava sentindo.

— Vou. Sai de perto da grade. 

Triz deu um sorriso. Podia notar o desespero no olhar da garota, ela não fazia ideia do que fazer nem de como parecer autoritária, o que tornava tudo mais divertido. Beatriz ergueu as duas mãos no alto, como se estivesse prestes a ser presa, mas não se afastou. Na verdade deu mais um passo pra frente.

— Eu mandei você sair de perto! — A garota de cabelo rosa parecia assustada, olhava pra trás pelo canto do olho, mas logo voltava a mirar Beatriz. 

— Tá, tá. E quem é você? 

— O que te interessa? Vai embora. Não abrimos ainda. 

Triz deu mais um passo, quase colando o rosto no metal.

— E é, é?

— É. — A garota de cabelo rosa engoliu em seco.

Ela parecia desesperada com a proximidade que Triz estava da grade. Ela não parava de olhar pro lado e suas mãos brilhavam no sol, provavelmente suando de nervoso. Ok, agora Triz tinha cansado de brincar.

— Ok, chega. Cadê o Moisés?

— Você conhece o Moisés? — A garota de cabelo rosa tinha uma cara confusa e idiota que dava vontade de socar.

— Não. — Triz disse com um sorriso irônico no rosto. — Eu tô tentando invadir seu precioso parque de diversões e chutei o primeiro nome que me veio à cabeça torcendo pro segurança da portaria ter um nome bíblico. 

A falsificação de k-idol estava prestes a responder — provavelmente não de forma educada —, mas a discussão foi interrompida quando Dante se aproximou do portão, segurando o pedal da bike com uma mão e o capacete na outra.

— Triz! — Ele chamou a atenção das duas garotas, que se viraram quase ao mesmo tempo. — Ah, vocês se conheceram! 

Beatriz encarou Dante como se ele estivesse falando russo. O que era “vocês”? Quem eram “vocês”?

— Ela era a Beatriz que eu tava te falando! — Dante sorriu olhando pra dentro do parque procurando pelo homem que costumava ficar na porta. — Ué, cadê o Moisés?

— Era o que eu tava perguntando pra sua nova amiguinha, que aparentemente já ouviu falar de mim, mas ainda não me disse o nome dela. — Triz disse sem olhar na direção da garota de cabelo colorido. 

Dante olhou para Triz como se ela tivesse acabado de cometer algum crime de ódio. Por que ela estava tratando a menina assim? Quando ele conheceu a novata, tinha certeza que ela e Triz se dariam bem, então o que tinha acontecido enquanto ele pedalava pela rodovia?

— É Amélia — a garota de cabelo rosa disse encarando Triz com raiva nos olhos.

— Ah, desculpa, vó. Eu não tive a intenção de desrespeitar os mais velhos. — Triz tinha um olhar debochado, um sorrisinho discreto no canto dos lábios, mas um olhar de desprezo que doia fisicamente na garota de cabelo rosa. Amélia.

— Nossa, o que você.. — Amélia foi interrompida pelo som de chaves balançando. 

Moisés, o homem que cuidava do Portão B, vinha meio correndo até o portão. Ele usava a camisa cinza com o logo do parque e um boné azul que estava meio suado pelo calor.

— Oh, menina, brigado viu? Esse calor, a gente toma muita água. — ele explicou enquanto mexia no enorme bolo de chaves que estava pendurado em seu cinto. — Opa, Bia. Dandan. — Ele destrancou o cadeado do portão, permitindo a passagem dos dois funcionários que sorriram para o homem conforme passavam pela grade de metal. — Perdoa, viu? Eu precisava usar o banheiro e a menina Amélia aqui era a única disponível pra ficar de olho. Mas ela é nova por aqui, achei melhor deixar tudo trancado.

— Relaxa, tio Moisés, tudo certo — o tom de Triz fazia parecer que estava mesmo tudo bem, mas o olhar que ela lançou na direção da garota dava um tom contraditório — Eu não pensei em pegar a chave com o meu pai, teria me poupado um trabalho. Mas relaxa, tudo certo. 

Amélia tinha um olhar confuso, Triz quase podia ver as perguntinhas rodando na cabeça dela.

— Triz, essa é a  Amélia. Ela começou na semana que você foi pra Santa Catarina. Vai ficar no lugar da Leticia no Itororó. 

— Que bom — o tom da fala de Triz expressava o sentimento completamente contrário ao das palavras. — Vão trocar o sujo pelo mal lavado — ela resmungou baixinho. 

— Depois! — Dante quase gritou por cima da voz de Triz — Você podia ir mostrar o parque pra ela, né? Melhor conhecer pela mão de quem conhece bem. — Dante explicou enquanto jogava a mochila dentro da cabine de bilheteria, onde ele costumava ficar pela mulher. 

— Não — Triz disse seca e simples — Ela parece ter bastante domínio do parque já. Ela se vira, né?



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