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O que a Olivia Rodrigo sabe sobre o amor?

Foto do escritor: giovannamoliveira
giovannamoliveira
4 de jul.
7 min de leitura

Uma analise do álbum ‘you seem pretty sad for a girl so in love’



Em 12 de Junho, Olivia Rodrigo lançou um novo álbum entitulado “you seem pretty sad for a girl so in love”. O conceito do disco é percorrer, em ordem cronológica, as fases de um relacionamento, do momento em que você se apaixona até o fim da relação.


Dentre as diversas canções, uma que chamou a atenção dos fãs foi a faixa 9, ‘begged’. A faixa está na parte triste do álbum, em que o relacionamento começa a perder sentido e o “eu lírico” passa a questionar o valor que tem para seu parceiro e se implorar por amor ainda pode ser considerado ser amado.


Em diversas composições, Olivia fala sobre sua insegurança e a necessidade de se sentir amada da mesma maneira que ama. É assim que ‘begged’ começa, com uma súplica para que seu parceiro deixe claro que só tem olhos pra ela e que faria tudo para estar com ela, mas ele não está lá, então começa a duvidar.


‘begged’ traz a visão de um momento pelo qual diversas pessoas já passaram em relacionamentos: não querer ir embora, mas também não aguentar mais ficar. “Será que é normal lutar com a angústia de um amor estagnado?”, ela se pergunta na segunda parte da música, mas, ao mesmo tempo, descreve: “Estou sobrecarregada, estou carente e mesmo assim eu ainda me agarro à esperança como a neve nas montanhas”. 


Se agarrar à neve é quase como se ela soubesse que não tem mais futuro, porque a neve não é capaz de se manter eternamente nas montanhas, assim como a esperança não poderia mantê-la naquele relacionamento, por mais que quisesse.


Mas o refrão expõe sua insistência, mesmo que saiba que aquilo não é exatamente o que deseja: “Por isso, eu sou paciente; você está aprendendo; eu finjo que não está doendo porque dizem que é uma virtude não deixar um bom amor escapar. Então eu sou tranquila e compreensiva, aceito o que você está dando, mas nada é realmente o bastante quando eu sei que, para ter, eu implorei”


A sensação de tentar ensinar alguém a te amar para manter um relacionamento é corrosiva, assim como aceitar qualquer coisa apenas para não perder alguém com tanto potencial. Em parte, isso também é reflexo do que somos ensinados sobre o que é o amor e como lidar com ele.


Existem diversas teorias filosóficas que explicam nossa compreensão do amor, como ele se cria, se define, e como lidar com relações afetivas. Entre elas, a Teoria do Apego, desenvolvida pelo psicanalista e psiquiatra infantil John Bowlby (1907-1990). Segundo as análises das pesquisas feitas por Bowlby, há uma tendência de que, na vida adulta, o indivíduo busque relacionamentos que funcionem nos moldes do vínculo formado com suas primeiras figuras de apego emocional. A partir desse conceito, a psicóloga Mary Ainsworth (1913-1999) criou o experimento conhecido como “Situação Estranha”, no qual mapeou os comportamentos de crianças ao serem separadas de seus cuidadores — suas figuras de apego.


Seguindo o experimento, foram identificados três tipos de apego: seguro, evitativo ou ansioso. 


O apego seguro foi associado a crianças encorajadas à independência, mas mantidas seguras e monitoradas pelos cuidadores. Elas exploravam os ambientes com ou sem a presença dos pais, não parecendo muito felizes ao serem deixadas sós e comemorando o retorno de seus familiares. Ao se desenvolverem, são indivíduos que se apegam da maneira mais segura: gostam da presença de outra pessoa, sem qualquer perda significativa ao estarem só. São capazes de coexistir e de serem deixadas sozinhas.


O apego evitativo foi o reflexo de crianças que, apesar de manterem traços de independência, já não demonstraram estar tão confortáveis com a presença dos cuidadores. Brincavam pouco com os adultos, não demonstraram chateação ao serem deixados e, em alguns casos, demonstraram aversão à figura da mãe, ignorando sua presença. Ao se desenvolverem, podem interpretar relações de proximidade como uma perda de independência e acabam se afastando de pessoas que consideram perigosamente próximas. 


Essas são as pessoas que evitam falar sobre seus sentimentos, enfrentar conflitos ou ter conversas sérias, especialmente sobre si mesmas. O apego evitativo é considerado um mecanismo de defesa de crianças que não tiveram acolhimento emocional, foram negligenciadas ou criadas com independência extrema.


O apego ansioso (ou resistente) foi demonstrado por crianças que iam pelo caminho da angústia. Não demonstravam interesse em explorar o ambiente; ficavam nervosas com a ausência dos pais; na presença deles, pareciam resistir à comunicação enquanto tentavam manter-se fisicamente próximas. Esse tipo de reação sugeria uma relação imprevisível, pais que lidavam com os filhos de modo inconsistente, variando entre o afeto e o abandono sem distinção clara.


Essas são as pessoas que têm medo de perder quem amam. Estão constantemente ansiosos, dando pouco espaço aos parceiros, temendo qualquer alteração mínima no relacionamento. Geralmente veem silêncio, brigas ou reações diferentes do esperado, como culpa pessoal por não serem bons o suficiente.


Através de suas canções, Olivia demonstra ter uma relação com o apego ansioso. Ao longo de diversas músicas de sua carreira, demonstra ter medo de ser trocada, se esforçar demais pra ser “melhor” e perdoar todos os erros de seus companheiros.


Em ‘enough of you’, de seu primeiro álbum ‘SOUR’, narra que tentou ao máximo agradar seu parceiro e exatamente por isso parecia não se encaixar no que ele queria: “E você sempre diz que eu nunca fico satisfeita, mas eu não acho que isso seja verdade porque tudo que eu sempre quis foi ser o suficiente para você”.  A música reflete o pensamento de que, para amar e ser amada, é preciso mudar e se encaixar no que a outra pessoa espera de você. 


Em ‘logical’, canção de seu segundo álbum ‘GUTS’, descreve a ideia de que se pode mudar alguém através do amor e da confiança quase cega que nos é vendida como base de um relacionamento: “E agora você me fez pensar que dois mais dois é cinco e que eu sou o amor da sua vida. Porque se a chuva não cai e o sol não brilha, então é possível te mudar. Não, o amor nunca segue a lógica”.


E a dúvida sobre o sentido do amor segue em ‘love is embarrasing’, em que mesmo se esforçando pra ser uma boa parceira e ignorando todos os sinais de alerta, ainda assim não seria escolhida: “Desisto, desisto, desisto de tudo. Fiz minhas apostas e elas não valeram de nada. Desisto, desisto, mas continuo voltando por mais”.


Nos materiais de divulgação do álbum, Olivia incluiu um versículo bíblico, parte da Primeira Epístola aos Coríntios 13:4, que diz: "O amor é paciente, o amor é bondoso, não inveja, não se vangloria". Apesar da diferença entre o tipo de amor demonstrado em suas canções e no versículo, há uma relação entre o que acontece em relacionamentos e os desejos de alguém apaixonado. É como se o versículo fosse um guia do que Olivia vem buscando em uma relação enquanto suas composições refletem o que realmente encontrou.


Olivia quer ser paciente e bondosa, está constantemente perdoando e entendendo, vendo cada erro do parceiro apenas como algo a ser superado, mas isso não vale para si. Sua visão sobre si mesma é irritada, negativa; está em constante dúvida sobre seu valor e precisa da confirmação vinda de um terceiro — também sintoma de apego ansioso. E Olivia quer que seu parceiro seja tão paciente e bondoso quanto ela é, mas esquece que o amor descrito por Paulo na Bíblia não envolve apenas o amor romântico e que a prática poderia e deveria estar inclusa no amor-próprio.


Ser bondoso consigo mesmo é mais difícil; não é fácil perdoar seus próprios erros, já que estamos constantemente inseridos em nossa mente, que revisita nossa culpa, medos e vergonhas o tempo todo. E por mais que ignoremos os erros dos outros, é comum que achemos que eles não poderão perdoar os nossos. Mas essa não é a verdade.


Seguindo a relação com ideias bíblicas, em Mateus 18:21-22, Jesus diz a Pedro que devemos perdoar mais de 7 vezes, 70x7, como um conceito de perdão infinito que parte do arrependimento. E isso vale tanto para os irmãos quanto para si mesmo. 


Entretanto, perdão não significa ser passada para trás. O relacionamento apresentado em ‘you seem pretty sad for a girl so in love’ acaba quando os dois percebem que o amor não é o suficiente pra manter uma relação. Olivia demonstra que amava profundamente, assim como seu parceiro a amava (mesmo que em ‘less’ ela diga que, se aquilo era amor, preferia que ele a amasse menos), mas não funcionou. E agora?


Em ‘the cure’, Olivia diz que percebeu que por mais que seu companheiro tentasse, ele não poderia curá-la de suas mazelas pessoais. Sua insegurança, dependência emocional e baixa autoestima eram intensificadas por seu apego, que buscava valor na visão do outro. Mas ao perceber onde estava o erro, começa a busca pela melhora e pelo amor-próprio. Compreender onde você erra é a primeira parte para começar a acertar. 


Em ‘expectations’, décima segunda música do álbum, Olivia já aparece numa nova versão de si mesma mais confiante e menos dependente da visão do outro: “Levaram uns meses, mas agora eu estou confiante. Eu estou tão evoluída que agora peço mais, e mais, e mais, e mais, e mais”.


No livro “8 Regras do Amor”, Jay Shetty cria uma espécie de guia para compreender conceitos sobre amor e relações, indo desde a maneira de encontrar esse amor, como mantê-lo e como deixá-lo ir. As 8 regras são realmente descritas no livro e comentaremos a regra 3: Defina o amor antes de pensar nele, de o sentir ou de o expressar.


Ao contrário das outras composições de Olivia, em que ela parecia aceitar o que lhe era imposto como amor, em ‘expectations’ já há um conceito formado do que é amor para ela e do que espera de um relacionamento, ela se sente mais segura consigo e suas expectativas, parando de tentar caber em outra pessoa.: “Entreguei meu coração sem impor nenhuma condição. Agora, eu analiso com cuidado. Eu não beijo garotos acomodados. A indecisão deles é dolorosamente brochante. Hoje em dia, eu tenho expectativas”.


As músicas do novo álbum são um reflexo de uma jovem de 20 anos vivendo seu primeiro relacionamento adulto com todas as questões que englobam a crise dos 20. Em entrevista ao Popcast, Olivia descreveu o processo de escrita das músicas como uma maneira de processar seus sentimentos: “Eu escrevo músicas pra processar meus sentimentos, então todos os dias eu vou, me sento no piano ou pego a guitarra quando estou no estúdio, é como se me perguntasse: ‘o que está queimando em mim para dizer agora?’”. E o mesmo acontece com seus fãs, que usam suas músicas para processar, compreender e valorizar seus sentimentos enquanto jovens.


No fim, Olivia também está tentando entender o que é o amor, como amar ao próximo e a si, e isso é refletido em sua arte. Olivia não sabe nada sobre amor e está aprendendo como tantos de nós. O amor sempre será material de estudo para arte e filosofia, mas também deveria ser algo a ser estudado por cada um para que as relações interpessoais fossem mais sinceras e seguras, afinal, o amor nunca é lógico.

 
 
 

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